OS INIMIGOS QUE JÁ FORAM PARCEIROS: ISRAEL E IRÃ
- Maura Palumbo

- 20 de abr. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 22 de abr. de 2024
Uma relação turbulenta marcada por alianças e hostilidades

1. Israel e Irã: Parceiros Iniciais e Ruptura
Israel e Irã, duas nações que no tempo passado foram parceiras estratégicas, agora se encontram em um estado de tensão e conflito. Essa transformação dramática na dinâmica entre esses dois países é um exemplo marcante das complexidades geopolíticas na região do Oriente Médio.
A história desses dois países remonta ao período logo após a criação do Estado de Israel em 1948. Em 1950, o Irã foi um dos primeiros países a reconhecer a legitimidade do novo estado israelense, sendo o segundo país mulçumano a legitimá-lo. Esse reconhecimento foi o ponto de partida para uma relação que se desenvolveu em diversos aspectos, incluindo político, militar e comercial.
Durante várias décadas, o Irã exportou petróleo para Israel, enquanto Israel fornecia armas, tecnologia e produtos agrícolas em troca. Além disso, houve colaboração na esfera da segurança, com a participação conjunta na criação da polícia secreta iraniana, com a ajuda do Mossad israelense e da CIA americana. Essa parceria estratégica foi viabilizada por meio de acordos firmados sob a liderança do então governante iraniano, o xá Reza Pahlevi.
No entanto, a década de 1970 marcou uma virada significativa nessa relação. A ascensão da revolução liderada por Aiatolá Khomeini em 1979 e a consequente instauração da República Islâmica do Irã resultaram na ruptura das relações diplomáticas com EUA e passa a adotar uma postura hostil em relação a Israel, negando seu reconhecimento como um país apoiando organizações e grupos militantes anti-israelenses e se distanciando mundo ocidental.
2. Evolução dos conflitos e apoio a Grupos Militantes
Em 1980 é criada a Jihad Islâmica, a primeira organização palestina islâmica, de inspiração iraniana, a pegar em armas contra Israel. Mesmo assim, dentro desse cenário conturbado, Israel entrega mísseis ao Irã, durante a guerra contra o Iraque. Tratava-se de uma manobra destinada a obter a libertação de reféns americanos mantidos no Líbano. Em 1982, Israel invade o Líbano para pôr fim aos ataques palestinos do país vizinho.
A guarda revolucionária do Irã também ajudou na criação do Hezbollah, um grupo terrorista localizado no sul libanês que lançou luta armada contra Israel. Irã é denominado o patrocinador do terrorismo
Em 2013, com a Síria em guerra civil, houve intervenção militar do Hezbollah e de Teerã para apoiar o regime de Bashar al-Assad.
Já em 2015, foi firmado um Plano de Ação Conjunto Global, que estabelecia limites ao programa nuclear iraniano, mas três anos depois, apareceram indícios de que o Irã estaria descumprindo o acordo e dando continuidade a construção de armas nucleares.
Essa escalada de hostilidades culminou em confrontos indiretos entre Israel e o Irã em diferentes momentos, com episódios de apoio iraniano a grupos armados que atuam contra interesses israelenses. A preocupação com o programa nuclear iraniano também tem sido uma fonte constante de tensão, levando a comunidade internacional a buscar acordos e limitações para evitar um aumento ainda maior de conflitos na região.
Em 2020, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, unidos por sua animosidade em relação ao Irã, assinam acordos de normalização das relações com Israel.
3. Escala atual de tensões e conflitos
Em 7 de outubro de 2023, o grupo terrorista Hamas invadiu Israel, atacando postos militares, kibutz (colônias agrícolas) e um festival de música, vitimando milhares de pessoas, em sua maioria civis, e fazendo cerca de 240 pessoas como reféns, no pior ato de violência contra o Estado judeu desde sua formação em 1948. Comprovou-se que, além do apoio ao grupo palestino Hamas, o Irã treina e patrocina grupos terroristas no Iêmen, Síria, Iraque e Líbano.
Em abril de 2024, após seis meses de guerra entre Israel e Hamas, o Irã ataca Israel em resposta ao ataque israelense na embaixada iraniana em Damasco na Síria, considerado um alvo militar. Foram mortos oito integrantes da guarda revolucionária iraniana, que conspira e alimenta grupos terroristas com armas contra Israel.
Cerca de 300 mísseis e drones foram lançados contra Israel. Esse ataque de larga escala e sem precedentes, foi condenado por muitos países, incluindo países árabes.
Fonte: Daily Mail
Israel afirmou que caças do país e de aliados, como EUA e Reino Unido, e o sistema de defesa Domo de Ferro interceptaram 99% dos alvos aéreos.
Em 19 de abril, Israel atingiu bases militares do Irã, em retaliação a escalada da tensão entre os dois países nas últimas semanas.
4. Perspectivas de especialistas e desafios diplomáticos
Recentemente, os acontecimentos de outubro de 2023 e abril de 2024 evidenciaram a intensificação dessa rivalidade. O ataque do grupo terrorista Hamas contra Israel, executado pela resposta do Irã em abril de 2024, demonstra a volatilidade da situação e o potencial de um conflito de longa escala.
O conflito Irã e Israel sai da sombra, após décadas, e somente em abril de 2024 ocorre esse ataque direto. Antes, o Irã apoiava, abastecia e treinava grupos terroristas. Neste contexto, o confronto direto entre esses dois países não representa apenas uma ameaça à estabilidade regional, mas também gera preocupações a nível global. Uma escalada descontrolada desses conflitos poderia ter repercussões humanitárias e econômicas de proporções catastróficas, destacando a urgência de buscar soluções diplomáticas e desescaladas para evitar um cenário ainda mais caótico no Oriente Médio podendo repercutir de forma preocupante
De acordo com o especialista em geopolítica Vali Nasr*, a relação entre Israel e Irã é complexa e profundamente enraizada em questões históricas, ideológicas e estratégicas. Nasr destaca que a parceria inicial entre os dois países, durante o período do xá Reza Pahlevi, refletiu interesses pragmáticos e estratégicos em um contexto regional volátil. No entanto, a ascensão da Revolução Islâmica em 1979 marcou um ponto de virada crucial, levando a uma ruptura nas relações e ao surgimento de hostilidades sustentadas ao longo das décadas seguintes.
Por outro lado, o especialista em política e diplomacia Michael Oren** enfatiza a importância do contexto geopolítico mais amplo na dinâmica entre Israel e Irã. Oren destaca que a tensão entre esses dois países não é apenas resultado de divergências bilaterais, mas também são influenciadas por alianças regionais, interesses globais e competições de poder na região do Oriente Médio. A interconexão desses fatores torna a resolução desses conflitos um desafio complexo e multifacetado.
Ambos os especialistas concordam que a situação atual entre Israel e Irã requer uma abordagem cuidadosa e estratégica por parte da comunidade internacional, com ênfase na diplomacia, na busca por soluções negociadas e na mitigação de conflitos potenciais que possam ter repercussões globais.
Leitura Recomendada:
Para uma análise mais aprofundada sobre a dinâmica entre Israel e Irã, recomendo a leitura dos seguintes artigos:
The Guardian - Relações Israel-Irã: uma história complexa e volátil - Uma visão abrangente da história e dos desafios atuais na relação entre os dois países.
Foreign Policy - A Geopolítica das Relações Israel-Irã - Análises e opiniões de especialistas sobre as implicações geopolíticas dessa rivalidade.
*Vali Nasr é um acadêmico e especialista em geopolítica de origem iraniana-americana. Atualmente é professor da Escola Paul H. Nitze de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Autor de diversos livros sobre política, religião e questões do Oriente Médio.
**Michael Oren é historiador, político e diplomata israelense. Atuou como embaixador de Israel nos Estados Unidos entre 2009 e 2013, período durante o qual desempenhou um papel fundamental nas relações bilaterais entre os dois países. Autor de obras importantes sobre a história de Israel e o conflito no Oriente Médio, além de ser uma voz influente no cenário político e acadêmico de Israel.



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