O RESSURGIMENTO DO EXTREMISMO
- Maura Palumbo

- 27 de fev.
- 5 min de leitura
Atualizado: 27 de fev.
UM DIAGNÓSTICO DO ANTISSEMITISMO E NEONAZISMO EM 2026

Fonte – AFP/Getty
Atualmente, o panorama sociopolítico global enfrenta um dos seus maiores desafios éticos e de segurança pública desde a metade do século passado. A escalada do antissemitismo e a reorganização de células neonazistas deixaram de ser fenômenos isolados para se tornarem pautas centrais em relatórios de inteligência e direitos humanos. Este crescimento, impulsionado por uma combinação de instabilidade geopolítica e a rápida disseminação de discursos de ódio em plataformas digitais, exige uma análise técnica baseada em dados consolidados por instituições de renome internacional e órgãos de segurança nacional.
O estopim de outubro e a radiografia do antissemitismo global
O mundo mudou drasticamente após o fatídico 7 de outubro de 2023. O que começou como o ataque terrorista mais letal da história do Estado de Israel, perpetrado pelo grupo Hamas, desencadeou uma reação em cadeia que transbordou as fronteiras do Oriente Médio.
De acordo com o Combat Antisemitism Movement (CAM) e a Anti-Defamation League (ADL), o conflito serviu como um catalisador para uma onda de perseguição sem precedentes desde o Holocausto. Nos Estados Unidos, a ADL documentou que o país consolidou-se como a nação com o maior volume absoluto de incidentes, registrando um aumento superior a 360% em casos de assédio, vandalismo e agressões físicas entre 2024 e 2025.
Na Europa, os números revelam uma realidade igualmente alarmante. O Ministério do Interior francês apontou que a comunidade judaica é alvo de mais de 50% de todos os crimes de ódio registrados no país, enquanto na Alemanha os registros dobraram em 2024. Essa tendência é corroborada pelo J7 (Global Task Force against Antisemitism), indicando que a natureza dos ataques evoluiu de pichações esporádicas para campanhas de desinformação orquestradas. A convergência entre o antissemitismo clássico e o novo antissionismo radical, inflamado pelas imagens da guerra em Gaza, criou um ambiente de insegurança onde a existência de Israel é frequentemente utilizada como pretexto para a demonização de populações judaicas na diáspora.

O movimento é recorrente e crescente no mundo. Um mês antes do ataque do Hamas, grupos de neonazistas e supremacistas brancos espalharam mensagens antissemitas e anti-LGBTQ nos arredores da Disney World e na área próxima de Orlando, na Flórida, nos exemplos mais recentes do crescente antissemitismo nos EUA, disseram autoridades.
De acordo com a Liga Antidifamação (ADL), uma organização de direitos civis dedicada ao combate ao extremismo, os participantes carregavam bandeiras e cartazes antissemitas, supremacistas brancos e anti-LGBTQ. O grupo era composto por membros dos grupos neonazistas Ordem do Sol Negro, Rede da Liberdade Ariana e 14 First, um grupo absorvido pelo Movimento Nacional Socialista, o maior grupo neonazista dos EUA, segundo a ADL.
O panorama brasileiro e o impacto do Conflito Israel-Hamas
No Brasil, o reflexo do conflito no Oriente Médio foi sísmico. Historicamente visto como um ambiente de convivência pacífica, o país registrou um aumento de 961% nas denúncias de antissemitismo logo no primeiro mês após o ataque do Hamas. Segundo os dados auditados pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB) e pela Federação Israelita do Estado de São Paulo (FISESP), as ocorrências mantiveram-se em patamares elevados, com um crescimento consolidado de 350% entre 2023 e 2025.
O monitoramento da CONIB identificou uma alta de 549% em discursos de ódio nas redes sociais, onde teorias da conspiração e a desumanização do povo judeu são propagadas por algoritmos de plataformas de vídeo curto.
A geografia do preconceito no território nacional revela concentrações específicas que preocupam o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). O estado de São Paulo detém o maior volume absoluto de registros, representando cerca de um terço das ocorrências nacionais. No entanto, o Observatório Judaico dos Direitos Humanos alerta para a interiorização desses movimentos, que se infiltram em comunidades menores por células de radicalização silenciosa, muitas vezes fundindo o antissionismo político com o ódio religioso histórico.
A ameaça das células neonazistas e o papel da Segurança Pública
O neonazismo no Brasil atravessou uma fase de transição perigosa, evoluindo para um problema de segurança interna sob a ótica do terrorismo doméstico. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, o número de inquéritos abertos pela Polícia Federal para investigar a apologia ao nazismo quadruplicou nos últimos ciclos. Santa Catarina e Rio Grande do Sul figuram como os estados com a maior concentração de células ativas, conforme os levantamentos iniciados pela antropóloga Adriana Dias e atualizados por novos observatórios.
A estrutura desses grupos modernos diferencia-se das décadas passadas: a radicalização ocorre predominantemente em fóruns de jogos e plataformas como o Discord, visando o recrutamento de adolescentes. A incidência de símbolos nazistas em escolas e espaços públicos teve uma alta de 760%, indicando a urgência de políticas educacionais aliadas à repressão penal baseada na Lei 7.716/89. O combate ao neonazismo no Brasil atual exige não apenas o monitoramento policial, mas o desmantelamento das redes de financiamento e a responsabilização de empresas de tecnologia.
O futuro da democracia
Os dados apresentados por entidades como a ADL, a CONIB e a Polícia Federal formam um mosaico preocupante da intolerância contemporânea. O crescimento do antissemitismo e do neonazismo em 2026 não é apenas uma ameaça às comunidades judaicas, mas um sintoma da fragilidade democrática diante de crises internacionais. A resposta institucional brasileira, liderada pelo Ministério da Justiça, tem sido endurecer as penas e ampliar a vigilância digital. No entanto, o caminho para a erradicação do ódio sistêmico ainda depende de uma cooperação global e de uma educação resiliente que saiba separar a crítica política legítima do preconceito cego.
Referências
As informações, estatísticas e análises apresentadas neste artigo foram extraídas e consolidadas a partir de relatórios oficiais, monitoramentos institucionais e publicações das seguintes entidades:
Anti-Defamation League (ADL) – Relatórios anuais sobre incidentes antissemitas nos Estados Unidos (2024–2025) - https://www.adl.org
Combat Antisemitism Movement (CAM) – Monitoramento global de incidentes e tendências pós-7 de outubro - https://combatantisemitism.org
J7 – Global Task Force Against Antisemitism – Relatórios conjuntos das principais organizações judaicas globais - https://www.j7taskforce.org
Ministério do Interior da França – Estatísticas oficiais de crimes de ódio e antissemitismo - https://www.interieur.gouv.fr
Bundesministerium des Innern (Ministério do Interior da Alemanha) – Relatórios de extremismo e crimes motivados por ódio - https://www.bmi.bund.de
Confederação Israelita do Brasil (CONIB) – Monitoramento nacional de casos de antissemitismo - https://www.conib.org.br
Federação Israelita do Estado de São Paulo (FISESP) – Dados consolidados de denúncias e acompanhamento jurídico - https://fisesp.org.br
Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil – Relatórios sobre interiorização e radicalização digital - https://observatoriojudaico.org.br
Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) – Relatórios sobre intolerância religiosa e crimes de ódio
https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/cndh
Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025) – Dados sobre investigações de apologia ao nazismo e extremismo doméstico
https://forumseguranca.org.br/anuario-brasileiro-seguranca-publica
Lei nº 7.716/1989 – Lei brasileira que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor - http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm



Comentários